Nesta terceira etapa da série sobre a moderna indústria rural, a viagem passa pelos Campos Gerais e pelo Oeste do Paraná para mostrar uma ideia cada vez mais presente no campo: produtividade também depende de conforto. Em propriedades de ovinos e de gado leiteiro, o bem-estar animal aparece em diferentes formas. Do manejo natural das pastagens à nutrição de precisão, da silagem bem feita aos robôs de ordenha. O que antes poderia parecer cuidado extra virou parte da estratégia produtiva. No campo moderno, sombra, água fresca, alimento de qualidade e tecnologia não são luxo. São investimentos. Mesmo que soe curioso, vacas com chuveiro, ventilador e até coçador automático sempre disponível.
Quando cuidar melhor também aumenta a produção
“Será que o conforto de uma vaca ou o repouso silencioso de uma ovelha podem ser medidos em litros de leite e quilos de carne? Nesta terceira reportagem da nossa série especial, percorri os Campos Gerais do Paraná para entender como o bem-estar animal se tornou o investimento mais lucrativo do campo moderno.
De Castro a Palmeira, encontrei desde a sabedoria de Taeke Greidanus, que aos 81 anos utiliza ciclos naturais e o ‘trevo de quatro folhas’ para garantir a sanidade do rebanho, até a alta tecnologia na fazenda de Armando Rabbers, onde robôs e sistemas de climatização garantem o máximo conforto às vacas. O resultado? Ganhos de produtividade que provam uma tese definitiva: no agronegócio de vanguarda, ética e eficiência caminham juntas. Onde há cuidado, há retorno.”

Manejo natural nos Campos Gerais
Sustentabilidade no longo prazo é a proposta de Taeke Greidanus, em Castro, nos Campos Gerais. Ele produz carneiros reprodutores com melhoramento genético e inseminação artificial. Mas, aos 81 anos, ele aprendeu como usar também os ciclos da natureza para obter carneiros cada vez mais saudáveis. Aves e pasto com trevo de quatro folhas são aliados.
Os pássaros comem caramujo nos campos e ajudam a combater a proliferação de verminoses; o trevo de quatro folhas combate fixação do verme na parede do intestino. “É bom ter por aí”, garante o ovinocultor.
Num passeio de carona no carro elétrico, usado para inspecionar a criação na propriedade, nós atravessamos a pastagem onde fêmeas inseminadas há 15 dias repousam tranquilas. “Não deixamos nem cachorro por perto para não se agitem”, o que poderia comprometer a gestação. O manejo na fazenda é feito no capricho. Um antigo banhado na área mais baixa foi dividido em piquetes e drenado.
A cada dois meses a pastagem tem altura para receber os animais. Comida farta ajuda e complementação nutritiva garantem os lucros. Num caso recente, uma gestação com 32 embriões resultou em 21 carneirinhos nascidos vivos! Quatro foram selecionados para ficar na propriedade. Os demais, ao atingirem oito meses, serão vendidos para pequenos produtores de ovinos.
A proposta é produzir reprodutores a baixo custo. “Cerca de 400 reprodutores por ano, afirma o produtor.” O meu custo é o mesmo… Conta é que o pequeno invista o valor de três carcaças de carne para pagar um reprodutor, que poderá cobrir até 40 fêmeas.”
Silagem de qualidade para reduzir perdas
Reduzir custos! O produtor Neri Miguel da Silva compartilha a preocupação número um no campo. Na propriedade em Porto Barreiro, a solução foi investir em rapidez.
Maquinário contratado por hora faz a colheita do milho para forragem, ao mesmo tempo em que monta e fecha os silos com alimento do gado no inverno. A silagem ganha qualidade. Uma segurança a mais para garantir a produção leiteira. “É a renda mais garantida. Todo mês tem. Do dia 15 ao dia 20, entra dinheiro”, nos explica o produtor.
A máquina forrageira é uma fábrica em movimento. João Bombardelli investiu um milhão e meio de reais na compra. Já tinha outras duas – além de caminhões e tratores. Ele se especializou em prestar serviços aos produtores rurais e cobra por hora 1800 reais. “Nós trabalhamos de 8 a 9 meses. Termina uma região produtora, vai para outra em que a safra é mais atrasada.
São até 15 horas de trabalho por dia. João esclarece que o corte e a moagem bem feitos definem o trabalho bem feito. “Se a gente errar um dia o produtor erra 6 meses, um ano!” A máquina robusta tem ajustes finos.
O zootecnista Alex Bidoia, que acompanha o trabalho e presta assistência técnica na região diz que a tecnologia ajuda na obtenção da silagem que terá mais aproveitamento pelo gado. “Milho inteiro é perda de dinheiro para o produtor porque o boi, a vaca não aproveitou os nutrientes. Ponto ideal é 32% de matéria seca no grão e vai dar mais resultado no leite, na carne.”
Nutrição de precisão no gado leiteiro
A região Oeste do Paraná produz mais de 1,1 bilhão de litros de leite por ano. A oferta de alimentos com alto valor nutritivo é pontual para ampliar a produção. Outro ponto é potencializar a absorção dos nutrientes e a proteção do gado contra doenças.
A oferta de leveduras favorece o ambiente ruminal para as bactérias, o que leva a melhor aproveitamento durante a digestão dos alimentos ingeridos. Um dos benefícios apontados pelos técnicos e fabricantes é que o animal se fortalece contra micotoxinas gerando melhora na imunidade.
Leite de qualidade começa no manejo
Keila Viana é zootecnista e atende produtores de leite na Colônia Wittmarsun, município de Palmeira, nos Campos Gerais. Ela destaca que em vacas com alta produção não pode haver erros. “Aditivos, minerais e leveduras num ajuste fino entram como complemento da alimentação oferecida.” Na produção de gado leiteiro e de corte a busca atual também é por modelos e substâncias cada vez mais naturais.
Do manejo natural à precisão nutricional
Nós fomos conhecer a propriedade de um dos gerentes da Cooperativa Wittmarsun que, entre outros produtos lácteos, se especializou na produção e venda de queijos finos. São 10 tipos diferentes. E todos com um sabor e um aroma a mais que conquista o consumidor.
A rotina de manejo do gado é ponto forte. “Buscamos a condição mais natural possível: pasto, silagem, ração natural para evitar antibióticos e hormônios”, enfatiza o produtor Jefferson Ferst Vieira, orgulhoso com a inclusão do leite produzido na fazenda dele na produção dos queijos da cooperativa. “A seleção é feita no escuro com base em critérios técnicos, só depois divulga-se a origem do leite escolhido.”

Robôs, chuveiros e conforto no galpão
Outro diferencial da região é a coleta rápida. Como trata-se de uma bacia leiteira pequena os produtores ficam muito perto da unidade de beneficiamento, o que garante maior qualidade ao produto final.
O clima temperado também ajuda a proporcionar conforto aos animais e a pastagem ganha um valor nutritivo maior. Na propriedade do Jefferson a produção média fica em 34 litros de leite por vaca/dia. Acima da média regional de 28 litros.
Domínio das informações e inovação tecnológica tornam a produção ainda mais lucrativa. Foi o que vimos na fazenda do produtor Armando Rabbers, na vizinha Castro. O sistema escolhido é o confinamento em tempo integral.
Sombra, água fresca e sempre disponível, além de itens que dão um certo ar de refinamento e luxo às estrelas do galpão. Chuveiros programados oferecem banhos refrescantes; coçadores gigantes conferem cuidado extra… E tem ainda mega ventiladores para afastar o calor. Além de pranchas automatizadas que mantém o piso de borracha não apenas macio, mas limpo.
Bem-estar animal como investimento
Na ordenha a palavra é tecnologia. Um robô faz todo o serviço, desde a identificação e condução das vacas. Ele ainda limpa e identifica cada teta; suga o leite e envia para os tanques.
Com os dados que vão sendo armazenados, a máquina só libera a vaca para a ordenha quando há potencial para coleta de pelo menos 15 litros. “É para otimizar a máquina”, nos conta Armando.
Desde que a robotização entrou na fazenda, são mais 6 litros de leite/dia por animal. O investimento total no sistema chega a quase R$ 3 milhões e ele garante que compensa. “Tudo que se investe em bem-estar do animal tem retorno na produção.”
Este é o terceiro texto da série sobre a moderna indústria rural no Paraná, com foco em bem-estar animal, pecuária leiteira, ovinocultura, silagem, nutrição de precisão e robotização no campo. As reportagens originais foram produzidas em 2017 e foram reconhecidas no Prêmio Alltech de Jornalismo, na categoria Gestão de Negócios. Confira:





