A água do mar começa a entrar no mapa da segurança hídrica brasileira. Em um cenário de secas mais intensas, eventos extremos e pressão crescente sobre rios e reservatórios, a dessalinização deixou de ser uma tecnologia distante e passou a aparecer como alternativa concreta para indústrias, cidades litorâneas e regiões vulneráveis à escassez.
A lógica é simples: em vez de disputar água doce com o abastecimento público, grandes consumidores podem buscar no oceano uma fonte complementar. Mas a resposta não está apenas em retirar o sal da água. A nova agenda hídrica combina dessalinização, reúso, recirculação, eficiência energética e redução da pressão sobre mananciais.
No Brasil, um dos casos mais relevantes está no litoral do Espírito Santo.
Caso ArcelorMittal Tubarão
Desde 2021, o complexo da ArcelorMittal Tubarão, no município de Serra, opera uma planta de dessalinização de água do mar para fins industriais. O sistema recebeu investimento de R$ 50 milhões e tem capacidade inicial para dessalinizar 500 metros cúbicos de água por hora, o equivalente a 12 mil metros cúbicos por dia.

A planta foi anunciada como a maior estrutura de dessalinização de água do mar do Brasil no momento de sua inauguração e se tornou uma referência nacional para o uso industrial da tecnologia. A água tratada é utilizada nos processos da siderurgia, reduzindo a necessidade de captação de água doce.
Esse é o ponto central do projeto: em vez de ampliar a pressão sobre rios e reservatórios, a empresa passou a usar água do mar como fonte alternativa. No caso de Tubarão, isso contribui para reduzir a dependência do Rio Santa Maria da Vitória, importante manancial do Espírito Santo.
A capacidade da planta é comparada pela própria indústria ao abastecimento diário de uma cidade de cerca de 80 mil habitantes. O projeto também foi estruturado em módulos, permitindo expansão futura conforme a necessidade operacional.
Como funciona a osmose reversa
A tecnologia usada no processo é a osmose reversa, uma das técnicas mais aplicadas hoje em projetos de dessalinização.
Na prática, a água do mar é captada, passa por etapas de pré-tratamento e depois é bombeada sob pressão contra membranas semipermeáveis. Essas membranas funcionam como filtros extremamente seletivos: deixam passar moléculas de água, mas retêm sais, minerais e outras impurezas.
O resultado é uma água com baixa concentração de sais, adequada para usos industriais e, em outros projetos, também para abastecimento humano. O processo exige energia, controle operacional e tratamento adequado da salmoura, que é o concentrado salino resultante da separação.
No caso da ArcelorMittal Tubarão, a demanda energética da planta foi estimada em cerca de 3 megawatts, o que representa menos de 1% da energia gerada pela própria unidade industrial, segundo informações divulgadas pelo setor.
Esse detalhe é importante porque o consumo de energia é um dos principais pontos de atenção da dessalinização. Quanto mais limpa e eficiente for a matriz energética usada no processo, maior tende a ser o ganho ambiental da solução.
Menos pressão sobre rios
A dessalinização não deve ser vista como substituta da gestão de rios, aquíferos e reservatórios. Ela é uma ferramenta complementar.
Seu maior valor aparece em regiões litorâneas ou em setores de alto consumo de água, onde o uso do mar pode reduzir a pressão sobre mananciais de água doce. Para indústrias, isso significa mais segurança operacional em períodos de estiagem. Para a sociedade, pode significar mais água doce disponível para usos prioritários, como abastecimento humano, dessedentação animal e proteção de ecossistemas.
No caso da indústria, a tecnologia ganha força quando é combinada com reúso e recirculação. A própria ArcelorMittal informa que outras unidades brasileiras avançaram nessa frente, com índices superiores a 98% de recirculação hídrica em operações como Pecém e Vega.
Ou seja: o futuro da segurança hídrica industrial não está em uma única solução. Ele depende de uma cesta de medidas: captar menos água doce, reaproveitar mais, tratar melhor os efluentes, reduzir perdas e diversificar fontes.
É nesse contexto que a água do mar torna-se estratégica.
Onde e quando a seca pesa mais no Brasil?
A estiagem no Brasil varia conforme a região, mas alguns padrões ajudam a entender por que dessalinização, reúso e recirculação passaram a ocupar espaço na agenda de governos e empresas.
| Região | Período de maior atenção | Por que importa |
|---|---|---|
| Centro-Oeste | Maio a setembro | É o período seco típico do Brasil Central, com baixa umidade, risco de queimadas e pressão sobre agricultura, pecuária e reservatórios. |
| Sudeste | Maio a setembro, com atenção entre julho e setembro | A estiagem afeta mananciais, produção agrícola e sistemas urbanos, especialmente quando o verão anterior não recupera reservatórios. |
| Nordeste semiárido | Agosto a dezembro, variando por sub-região | A seca é recorrente e estrutural. A Embrapa estima que, a cada 100 anos, o Nordeste registre entre 18 e 20 anos com secas intensas. |
| Norte/Amazônia | Julho a outubro, com agravamento em anos críticos | Secas severas afetam rios, transporte, comunidades ribeirinhas, abastecimento e geração de energia. |
| Sul | Mais variável; pode ocorrer no verão, outono ou em períodos prolongados de estiagem | A seca costuma ser menos regular, mas pode causar impactos fortes na agropecuária, no abastecimento e na energia. |
Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a área com seca no Brasil caiu de 54% para 49% do território nacional entre fevereiro e março de 2026. Apesar da redução geral, o fenômeno avançou em partes das regiões Norte e Sul, mostrando que a crise hídrica deixou de ser um problema restrito ao semiárido.
Esse cenário reforça a importância de soluções complementares para segurança hídrica: dessalinização, reúso, recirculação, redução de perdas, reservação, proteção de bacias e monitoramento climático.
Dessal do Ceará
Se o caso da ArcelorMittal mostra a dessalinização aplicada à indústria, o Dessal do Ceará mostra como a tecnologia começa a entrar na agenda do abastecimento público.

O projeto, previsto para a Praia do Futuro, em Fortaleza, é uma Parceria Público-Privada com contrato de 30 anos e valor global estimado em cerca de R$ 3,1 bilhões.
A planta foi projetada para produzir 1 metro cúbico por segundo de água potável, volume capaz de ampliar em cerca de 12% a oferta de água da Região Metropolitana de Fortaleza. A estimativa divulgada para o projeto aponta atendimento a aproximadamente 720 mil pessoas.
A importância do Dessal do Ceará está no contexto regional. O estado convive historicamente com secas, baixa disponibilidade hídrica em parte do território e dependência de infraestrutura de reservatórios, canais e sistemas integrados. Ao incorporar a água do mar à matriz de abastecimento, Fortaleza tenta diversificar suas fontes e reduzir vulnerabilidades.
O modelo não elimina a necessidade de conservação de bacias, combate a perdas, reúso e planejamento urbano. Mas acrescenta uma fonte estável em uma região onde a água é um ativo estratégico.
Chile e exemplos internacionais
Na América Latina, o Chile é uma referência incontornável quando o assunto é dessalinização em grande escala.


A mineração chilena, especialmente a de cobre, passou a investir fortemente em água do mar para reduzir a dependência de aquíferos e rios em regiões de forte estresse hídrico. Um dos maiores exemplos é a planta de dessalinização da Minera Escondida, operada pela BHP, inaugurada em 2018 com capacidade de 2.500 litros por segundo. Na época, a empresa apresentou a estrutura como a maior planta de dessalinização da América Latina.
Outro caso relevante é o da mina Los Pelambres, da Antofagasta Minerals. Em 2024, a companhia inaugurou uma planta de dessalinização de cerca de US$ 2 bilhões, projetada para bombear 400 litros por segundo, com uma segunda etapa prevista para dobrar essa capacidade. O projeto foi desenvolvido em meio a uma seca prolongada na região chilena de Coquimbo.



Esses exemplos ajudam a colocar o Brasil em perspectiva. O país ainda não lidera a dessalinização industrial na América Latina em volume, mas começa a construir casos relevantes e adaptados à sua realidade.
Enquanto o Chile usa a tecnologia em escala gigantesca para mineração em regiões áridas, o Brasil começa a aplicá-la em dois caminhos complementares: segurança hídrica industrial e abastecimento urbano em regiões costeiras vulneráveis.
Água do mar sustenta operações em alto-mar
A dessalinização não é uma novidade no Brasil. Antes de ganhar espaço em projetos industriais em terra firme e em iniciativas de abastecimento urbano, a tecnologia já era aplicada em operações offshore, onde a disponibilidade de água doce é limitada e a autonomia operacional é essencial.
Um exemplo está no setor de petróleo e gás. A Petrobras já utiliza tecnologias de dessalinização em operações offshore, especialmente por osmose reversa, há quase uma década. Em 2017, a companhia contratou o fornecimento de água dessalinizada para 11 plataformas na Bacia de Campos. Cada unidade tinha capacidade prevista para dessalinizar 90 m³ de água do mar por dia, atendendo demandas operacionais em ambiente marítimo.
Ao produzir água diretamente a partir do mar, as unidades offshore reduzem dependências externas e aumentam a segurança operacional.
A diferença agora é de escala e de finalidade. O que antes aparecia principalmente como solução para operações isoladas em plataformas passa a ganhar relevância em plantas industriais costeiras, projetos de abastecimento urbano e estratégias de adaptação à crise hídrica.
Em outras palavras, a dessalinização no Brasil não começa do zero. Ela sai de aplicações especializadas, como o setor offshore, e passa a ocupar um espaço mais amplo no debate sobre segurança hídrica, sustentabilidade e resiliência climática.
Desafios ambientais da dessalinização
Apesar do potencial, a dessalinização não é uma solução mágica.
O primeiro desafio é o consumo de energia. A osmose reversa é mais eficiente do que tecnologias antigas de dessalinização térmica, mas ainda exige eletricidade para pressurizar a água e operar sistemas de bombeamento, filtragem e monitoramento. Se essa energia vier de fontes fósseis, parte do ganho ambiental pode ser reduzida.
O segundo desafio é a salmoura. Ao retirar o sal da água do mar, o processo gera um concentrado salino que precisa ser descartado ou tratado de forma adequada. Se lançado sem controle, esse efluente pode alterar a salinidade local e afetar organismos marinhos sensíveis.
O terceiro ponto é o licenciamento ambiental. Captação de água, instalação de tubulações, lançamento de salmoura e operação de plantas em áreas costeiras exigem estudos técnicos, monitoramento e regras claras.
Há também o desafio econômico. Dessalinizar ainda é mais caro do que captar água doce em muitas regiões. Por isso, a tecnologia tende a fazer mais sentido onde há escassez, pressão sobre mananciais, grandes consumidores próximos ao mar ou necessidade estratégica de diversificar fontes.
No fim das contas, a dessalinização deve ser vista como parte de uma estratégia mais ampla. Ela funciona melhor quando vem acompanhada de reúso, eficiência, energia limpa, proteção de bacias hidrográficas e governança da água.
A experiência da ArcelorMittal Tubarão mostra que a indústria brasileira já começa a se mover nessa direção. O Dessal do Ceará indica que o abastecimento urbano também pode seguir esse caminho. E os exemplos do Chile mostram que, em um mundo mais seco e mais quente, o mar tende a ganhar importância crescente na segurança hídrica.
A pergunta, agora, não é apenas se a dessalinização vai avançar. É como ela será regulada, financiada e integrada a uma política de água que coloque a sustentabilidade no centro da decisão.
Dessalinização em escala real
- ArcelorMittal Tubarão, ES: 500 m³/h para reduzir a dependência de água doce em processos siderúrgicos.
- Dessal do Ceará, CE: 1 m³/s previsto para abastecimento humano na Região Metropolitana de Fortaleza.
- Petrobras, RJ: uso de unidades móveis em plataformas offshore, onde a água do mar pode ser tratada para uso operacional.
- Minera Escondida, Chile: 2.500 L/s para mineração de cobre em uma das regiões mais áridas do mundo.
- Los Pelambres, Chile: 400 L/s na primeira fase, com expansão planejada para 800 L/s, criada em resposta à seca prolongada na região.
A água do mar não resolverá sozinha a crise hídrica. Mas, diante de secas mais frequentes, reservatórios pressionados e indústrias cada vez mais cobradas por responsabilidade ambiental, a dessalinização deixa de ser uma tecnologia distante e passa a ocupar um lugar estratégico.
O futuro da água no Brasil dependerá menos de uma solução única e mais da capacidade de combinar inovação, gestão pública, eficiência industrial e proteção dos rios. No novo mapa da segurança hídrica, o mar começa a ganhar espaço.
De olho no Horizonte
O que é dessalinização?
Dessalinização é o processo de remoção de sais e minerais da água do mar ou de águas salobras para permitir seu uso em atividades humanas, industriais ou produtivas.
O que é osmose reversa?
Osmose reversa é uma tecnologia de dessalinização em que a água é pressionada contra membranas semipermeáveis capazes de reter sais, impurezas e minerais dissolvidos.
A dessalinização pode ajudar na crise hídrica?
Sim. A dessalinização pode reduzir a pressão sobre rios, aquíferos e reservatórios, especialmente em regiões litorâneas ou em setores industriais que demandam grandes volumes de água.
Qual é o principal desafio da dessalinização?
Os principais desafios são o consumo de energia, o custo de implantação, o descarte adequado da salmoura e a necessidade de licenciamento ambiental rigoroso.



