Agrishow 2026 apresenta tecnologias para o novo agro, com máquinas conectadas, drones, aviação agrícola e soluções de sustentabilidade no campo.

Agrishow 2026 mostra tecnologia do céu ao solo no novo agro brasileiro

Com aviação agrícola, drones, inteligência artificial, bioinsumos, máquinas conectadas, irrigação e rastreabilidade, a Agrishow 2026 revela como a tecnologia transforma o agronegócio brasileiro em um campo mais produtivo, sustentável e orientado por dados.

Quem ainda associa o agronegócio apenas à imagem de tratores pesados e trabalho braçal está deixando de ver parte importante da transformação em curso no setor. A Agrishow 2026, em Ribeirão Preto, consolida o campo como laboratório vivo e mercado estratégico para tecnologias de diferentes áreas. Trata-se de uma matriz tecnológica que vai do céu ao solo: aviação, drones, inteligência artificial (IA), agricultura regenerativa, irrigação, armazenagem, créditos de carbono e gestão de dados. Tudo converge para viabilizar mais lucratividade nas fazendas e agroindústrias, sem perder de vista a sustentabilidade da própria atividade.

O horizonte atual coloca o país em uma transição relevante: de potência exportadora de commodities para protagonista global em agrotecnologia e segurança alimentar. A continuidade do país como referência mundial na produção de alimentos e energia passa por investimentos em adaptação climática e pela disseminação dessas inovações tanto entre os gigantes do agronegócio quanto nas pequenas propriedades.

Do Vale do Silício ao campo brasileiro

O novo agro exige produtores mais atentos à rentabilidade financeira e à eficiência das operações. Isso inclui o uso de inteligência artificial para monitorar processos produtivos, economizar recursos naturais, reduzir o consumo de água e defensivos químicos e preservar melhor o solo.

A leitura dos lançamentos apresentados na Agrishow 2026 mostra um campo cada vez mais próximo da lógica dos grandes polos de inovação, como o Vale do Silício, região da Califórnia, nos Estados Unidos, conhecida por concentrar grandes empresas de tecnologia, startups, investidores e centros de inovação que impulsionam tendências para o mercado mundial.

A promessa comum das novas tecnologias é reduzir desperdícios, encurtar etapas operacionais e transformar dados em decisões de manejo. Parte dos ganhos de eficiência no agro nasce justamente do cruzamento entre tecnologias de observação aérea e sistemas automatizados baseados em dados no solo. Há uma integração entre o que se faz aqui embaixo com tudo o que acontece, e é observado, lá de cima.

Dados obtidos por sensores, drones, robôs e sistemas digitais, quando processados por IA, ampliam a capacidade de prever riscos, corrigir falhas e tomar decisões de manejo com mais precisão. Em alguns casos, os próprios sistemas já conseguem tomar decisões e agir com total autonomia até acionando outros equipamentos. Isso também exige produtores e profissionais em constante capacitação.

Tecnologia como oportunidade de negócio

A Agrishow 2026 reúne mais de 800 marcas e tem expectativa de receber aproximadamente 200 mil visitantes. Segundo a organização, no ano passado, a feira movimentou R$ 14,6 bilhões em negócios. Produtores rurais, empresas de máquinas e equipamentos, fornecedores de insumos, startups e instituições apresentam novidades, fecham negócios e discutem tendências, especialmente a capacidade do setor de aliar tecnologia, sustentabilidade e produtividade. Mesmo empresas, como a Embraer, com  atuação consolidada nos setores aeroespacial e de defesa, estão na feira. Segundo Sany Onofre, líder da Aviação Agrícola da Embraer, a participação em uma das maiores feiras agrícolas no mundo integra a estratégia da empresa para abertura de novos mercados.

O presidente da Agrishow, João Carlos Marchesan, ressalta que “o mundo espera que o Brasil aumente a oferta de alimentos em 40% até 2050” e, ainda segundo ele, “isso não é apenas uma pressão, é uma oportunidade soberana”, disse.

Essa oportunidade ganha ares de realidade com novos tratores, colheitadeiras, sistemas de irrigação, soluções de agricultura de precisão, armazenagem, conectividade e tecnologias voltadas ao aumento da produtividade e da eficiência.

O novo manejo tem informação em tempo real

A Agrishow 2026 evidencia a “era da gestão baseada em dados”. No Agrishow Labs, startups e hubs de inovação mostram que as revoluções do Vale do Silício já estão embarcadas nas colheitadeiras e nos sistemas de armazenagem.

O trabalho humano no campo está passando por uma requalificação profunda. O trabalho operacional passa a conviver com funções mais técnicas, ligadas à leitura de dados, ao monitoramento de máquinas e à interpretação de indicadores da lavoura. Sensores climáticos gerenciam os riscos das safras em tempo real, mitigando as incertezas do clima extremo, enquanto máquinas com inteligência artificial tomam decisões milimétricas durante o plantio e a colheita. A tecnologia transformou a propriedade rural em uma central de inteligência contínua.

A seguir, veja como essa matriz tecnológica aparece nos principais eixos de inovação apresentados na Agrishow 2026.

Do céu ao solo: aviação, drones e pulverização inteligente

No céu do agro, a Agrishow 2026 mostra que a tecnologia já não se limita ao trator ou à colheitadeira. O céu sobre as plantações brasileiras é, hoje, um ambiente de extrema precisão. No topo dessa cadeia está a aviação agrícola, que traz a engenharia de ponta para a pulverização em larga escala. Aviões agrícolas, drones de pulverização, sistemas de distribuição e soluções para logística aérea passam a compor uma mesma estratégia: aplicar insumos com mais precisão, reduzir perdas operacionais e alcançar áreas em janelas cada vez mais curtas de manejo. A presença da Embraer com o Ipanema 203, movido 100% a etanol, reforça essa combinação entre tradição, eficiência e sustentabilidade na aviação agrícola.

O Brasil tem a segunda maior frota de aviação agrícola do mundo (atrás apenas dos EUA), e começamos o ano de 2025 com cerca de 2.700 aeronaves tripuladas operando no campo (aproximadamente 77% aviões e 23% helicópteros). O modelo Ipanema, da Embraer, tem participação expressiva nessa frota, com mais de 1.700 unidades entregues até novembro de 2025. Recentemente a aeronave recebeu a certificação para operar também no Paraguai.

O Ipanema 203 estreou na Agrishow 2015. A versão mais moderna ganhou dois metros a mais de envergadura, cabine mais alta, ar-condicionado e airbag. Segundo a fabricante, ele chega a pulverizar mais de 200 hectares por hora e pode garantir incremento real por safra de até 15 sacas a mais por hectare. Foto Embraer/Divulgação

Abaixo da linha de voo dos aviões, os drones também ganham espaço como ferramentas de produtividade. EAvision, em parceria com a Agrosure, DJI Agriculture e Xmobots aparecem nesse ecossistema com equipamentos voltados à pulverização, semeadura, distribuição e apoio logístico dentro das propriedades. A lógica é a mesma que orienta a agricultura de precisão: aplicar no local certo, na quantidade adequada e com menor desperdício.

É um papel de “micro-precisão”. Soluções não tripuladas mapeiam talhões com sensores multiespectrais, identificando gargalos hídricos ou pragas antes mesmo que o olho humano possa perceber, o que permite aplicações cirúrgicas de insumos e reduz custos operacionais. Imagem EAvision/Divulgação

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o mercado de drones agrícolas saltou de uma estimativa de 3 mil equipamentos em 2021, ano da regulamentação do uso pelo Mapa, para cerca de 35 mil unidades em operação em 2025. Entidades do setor projetam que esse número possa chegar à casa dos 100 mil equipamentos nos próximos anos, atendendo desde pequenas propriedades até grandes operações agrícolas.

Solo vivo e agricultura regenerativa

A tecnologia que vem do alto encontra outra frente de inovação no próprio solo. A agricultura regenerativa ganha espaço ao tratar a terra não apenas como suporte para a produção, mas como um sistema vivo, formado por microbiota, matéria orgânica, água, nutrientes e biodiversidade. Esse movimento dialoga com práticas já consolidadas no Brasil, como o Sistema Plantio Direto, baseado em mínimo revolvimento do solo, cobertura permanente e rotação de culturas.

Segundo a Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto, o país saiu de cerca de 200 hectares em 1972 para mais de 33 milhões de hectares em culturas anuais sob esse sistema.

Na Agrishow, esse eixo aparece em soluções como o TELLUS BR, da Agroallianz, voltado ao estímulo de microrganismos benéficos; o portfólio biológico da Vittia, com bionematicidas, biofungicidas e inoculantes; a plataforma Rizobiota Agro, da ByMyCell, que usa sequenciamento genético para analisar a microbiota do solo; e o TH.18, da Tritucap, equipamento que transforma resíduos vegetais em cobertura orgânica. O resultado esperado vai além da produtividade imediata: envolve maior resiliência do solo, melhor absorção de nutrientes, retenção de umidade e redução gradual da dependência de insumos externos.

Dados, IA e agricultura de precisão

A nova fronteira do agro está na capacidade de transformar dados em decisões. Sensores, softwares, inteligência artificial, robôs autônomos e plataformas de gestão permitem acompanhar operações em tempo real, identificar falhas, prever riscos e ajustar o manejo com mais precisão. Essa transformação também muda o perfil do trabalho no campo: a força operacional continua importante, mas passa a ser acompanhada por análise, interpretação e gestão de informação.

Na Agrishow 2026, esse movimento aparece em empresas como AGTech, Sigma, Solinftec, PTx, Move Agro, Inarix e Hural. A Move Agro apresenta o Opere+, aplicativo para gestão de operações com máquinas; a Inarix trabalha com inteligência artificial e visão computacional para processos na produção de grãos; a Hural leva o Hural Rover, pulverizador autônomo e elétrico; a Solinftec avança com robôs autônomos e IA aplicada à tomada de decisão; e a Sigma conecta sensores à medição de carbono, evapotranspiração e índice de área foliar. O Brasil também conta com um ecossistema crescente de inovação: o Radar Agtech Brasil mapeia startups do agro em segmentos antes, dentro e depois da fazenda desde 2019.

Máquinas mais eficientes e conectadas

As máquinas seguem no centro da Agrishow, mas agora aparecem cada vez mais conectadas, inteligentes e integradas a sistemas digitais. Tratores, colheitadeiras, plantadeiras, pulverizadores e equipamentos da linha amarela incorporam telemetria, piloto automático, inteligência embarcada, sistemas de monitoramento remoto e avanços em combustíveis alternativos.

Entre os destaques estão Case IH, New Holland, Valtra, Massey Ferguson, Fendt, Yanmar, Agritech, Cemag e Komatsu. A New Holland leva colheitadeiras com IA embarcada e trator a biometano; a Valtra apresenta a linha A5 e A5 HiTech; a Massey Ferguson aposta na série MF 5M, com telemetria e foco em pequenos e médios produtores; a Fendt destaca tratores de alta potência e plantadeiras com redução de sobreposição de insumos; e a Komatsu reforça o avanço da linha amarela no campo. Essa presença forte mostra que eficiência no campo não depende apenas do aumento da força das máquinas, mas está na capacidade de operar melhor, gastar menos e gerar dados para decisões mais rápidas.

Armazenagem, irrigação e redução de perdas

A produtividade do agro não se define apenas entre o plantio e a colheita. Armazenagem, irrigação e pós-colheita são etapas decisivas para preservar qualidade, reduzir desperdícios e proteger a rentabilidade. A Embrapa destaca que o monitoramento de perdas na colheita permite manejo mais eficiente e contribui para reduzir desperdícios de grãos, aumentar a durabilidade da colhedora e melhorar a lucratividade da lavoura.

Nesse eixo, entram soluções apresentadas na Agrishow 2026 pela CASP, AGI Brasil, GSI, Bauer/Irricontrol, Lindsay, Toledo do Brasil e Vista Hydraulics. A AGI Brasil expõe uma unidade compacta de silo para pequenos e médios produtores; a GSI leva equipamentos para armazenagem, secagem e movimentação de grãos; a CASP aposta em estruturas sob medida; a Bauer/Irricontrol e a Lindsay miram eficiência hídrica e segurança em sistemas de irrigação; e a Toledo do Brasil reforça o controle de umidade e pesagem. Em comum, essas tecnologias atacam um ponto sensível: não basta produzir mais, é preciso perder menos e preservar valor ao longo da cadeia.

Agrishow 2026 reúne soluções para todas as demandas das atividades que integram o agronegócio. Foto Agrishow/Divulgação

Sustentabilidade, carbono e rastreabilidade

A sustentabilidade aparece como eixo transversal da nova matriz tecnológica do agro. Sensores de carbono, bioinsumos, drones, irrigação inteligente, plataformas digitais, monitoramento climático e sistemas de rastreabilidade ajudam o produtor a responder a pressões econômicas, ambientais e regulatórias.

As boas práticas dentro e fora da fazenda influenciam o acesso a mercados, contratos, seguros, crédito, produtividade e planejamento de longo prazo.

Esse movimento se conecta a exigências internacionais mais rígidas. O regulamento europeu para produtos livres de desmatamento, o EUDR, impõe um rigor inédito a cadeias como soja, pecuária de corte, café, cacau, borracha, óleo de palma e produtos florestais. Com a recente revisão do Parlamento Europeu, a exigência passa a valer em 30 de dezembro de 2026 para médias e grandes empresas, e em 30 de junho de 2027 para os micro e pequenos negócios.

É nesse cenário de transição e pressão internacional que as tecnologias apresentadas na Agrishow ganham relevância. Elas ajudam a organizar dados complexos, comprovar a rastreabilidade de origem, monitorar emissões e reduzir desperdícios, entregando segurança jurídica e operacional ao produtor rural frente a um mercado global cada vez mais exigente.

Inovação e sustentabilidade exigem investimento

Na abertura da Agrishow, o Governo Federal anunciou o MOVE Agricultura, linha voltada ao financiamento de máquinas agrícolas. O reforço no crédito ajuda a explicar por que a inovação no campo também depende da capacidade de investimento: sem financiamento, a renovação de frota, a irrigação eficiente e a adoção de robótica tendem a ficar concentradas em produtores mais capitalizados. O crédito é o combustível que permite à tecnologia escalar e atingir o produtor de médio porte.

A Agrishow 2026 mostra que o agronegócio brasileiro deixou de ser apenas consumidor de tecnologia e passou a ocupar papel mais ativo na produção, adaptação e aplicação de soluções para o campo. Da aviação movida a biocombustível aos robôs no solo, a matriz do novo agro brasileiro é resiliente, inteligente e indispensável para o futuro da segurança alimentar global. O campo brasileiro, cada vez mais, antecipa tendências que devem orientar a produção de alimentos nas próximas décadas.

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