Neste último texto da série sobre a moderna indústria rural, a viagem pelo Paraná chega ao ponto central de toda produção agrícola: o solo.
É dele que saem os grãos, a renda, a força das cooperativas e boa parte da economia do estado. Mas manter essa base produtiva viva exige mais do que máquinas potentes e safras recordes. Exige ciência, manejo, conservação e uma nova relação com a natureza.
De Londrina aos Campos Gerais, produtores e pesquisadores mostram como controle biológico de pragas, agricultura de precisão, rotação de culturas e plantio direto ajudam a produzir mais com menos desperdício. No campo do futuro, a tecnologia não substitui a natureza: aprende com ela.
O solo como maior patrimônio do Paraná
“O solo é o maior patrimônio do Paraná, mas mantê-lo produtivo diante das mudanças climáticas é o grande desafio da nossa era. Nesta última reportagem da nossa série especial, mergulhei nas soluções que unem a biologia à informática para garantir que o campo continue alimentando as cidades sem esgotar seus recursos.
De Londrina aos Campos Gerais, vi como vespas minúsculas combatem pragas em pomares de laranja e como mapas de produtividade gerados por colheitadeiras de última geração eliminam o desperdício de insumos.
Mas, acima de tudo, ouvi de produtores veteranos e da nova geração de agrônomos uma lição única: a tecnologia mais avançada é aquela que aprende com a própria natureza. O plantio direto e a rotação de culturas continuam sendo a base de um ciclo onde nada se perde e tudo se transforma em riqueza e alimento.”
O campo alimenta as cidades. O Paraná tem 90% dos municípios com base rural. E a produção de grãos, carne e produtos agroindustriais no estado ajuda a combater a fome – um desafio que se transformou em desafio global principalmente por causa das mudanças climáticas. É preciso produzir mais sem esgotar a capacidade produtiva do solo. Profundo. Fértil. O solo é o maior patrimônio paranaense. Do café a soja, o Paraná consolidou a vocação de produzir alimentos.

Controle biológico contra pragas no campo
Nos últimos anos, um mosquitinho vem tirando o sono dos produtores de laranja. Semelhante a uma minúscula cigarra, o psilídeo é vetor de bactérias HLB, causadora do greening, doença responsável pela eliminação de pomares inteiros na Flóripa, EUA. A planta contaminada perde os frutos, que caem ainda pequenos, a produção despenca e o suco que sobra tem o sabor comprometido, gerando a perda de valor no mercado.
No Brasil a bactéria foi detectada pela primeira vez em 2004, em pomares de São Paulo. Mas já há registros dela também em Minas Gerais e Paraná. Pesquisadores trabalham para dominar o processo de produção para controle biológico do psilídeo.
O trabalho coordenado pela doutora Ana Maria Meneguim, no Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), em Londrina, conta com estufas para cultivo da planta hospedeira das larvas do mosquito, a criação dele e a multiplicação de uma vespa, a Tamarixia radiata, inimigo natural do psilídeo. “Uma tamarixia é capaz de eliminar até 500 psilídeos”, segundo a pesquisadora a previsão é produzir em larga escala no futuro, perto das regiões produtoras como Paranavaí, para evitar o mosquito em pomares em que não há controle químico.
Menos químicos, mais monitoramento
A solução biológica que vem sendo estudada para o cultivo de citros é o desejo dos produtores de soja e milho contra um outro bichinho, o percevejo. Ele chupa o grão, que perde qualidade e peso. Pesquisa e assistência técnica mudam o manejo no campo, controlam doenças. É possível reduzir pela metade a aplicação de químicos.
Segundo o fitopatologista da Fundação ABC, Senio Prestes, a doença é ser vivo e o monitoramento permite a aplicação de defensivos de maneira mais racional. “Utilizando o fungicida de maneira preventiva, usufruindo do residual maior que ele pode nos oferecer e com número de aplicações adequadas.”



Agricultura de precisão: dados a favor da produtividade
Práticas inteligentes têm garantido o bom desempenho nas regiões produtoras de grãos. O fazendeiro Armando Horing começou a trabalhar com o pai na terra há cinco décadas. Conhecimentos acumulados que ele soma a soluções modernas, como a agricultura de precisão, que estuda o solo em pequenas partes e garante a correção de nutrientes de forma equilibrada. Não há mais desperdício de sementes, adubos e defensivos. “Não há mais desperdício de sementes, adubos e defensivos”, comemora o agricultor.
Na safra 2015/2016 a produtividade média na região de Terra Roxa foi de 52 sacos/hectare. Com a agricultura de precisão aumentou para 64 sacos/hectare. “Com tecnologia vamos chegar aos 100 sacos/hectare em 5 ou 10 anos!”
Quase trezentos quilômetros distante, em Maringá, Cléber Veroneze Filho também aposta na força da informática para ter produtividade cada vez maior. A colheitadeira tem uma série de dados que cruzados com as análises de solo ampliam o potencial de cada safra. “Com o mapa de produtividade da lavoura é possível comparar com o mapa de fertilidade e determinar problemas pontuais e otimizar os recursos. Quanto menos você perder, maior a quantidade de grãos, melhor a qualidade e menos desconto na venda também.”
Ele é da nova geração de agricultores. Agrônomo, está na quinta safra como produtor e descobriu soluções das quais não abre mão! “O que está dando mais diferencial na nossa área é a integração do milho com pastagem, que é a braquiária. A gente tem menor índice de plantas daninhas no solo, usa menos herbicidas e menos calcário.”
Com a braquiária a região se diferencia em produtividade especialmente em anos secos. O agrônomo Walmir Schreimer, da Cocamar, acompanha o trabalho do Cléber e confirma que a pastagem colabora para a melhoria da qualidade do solo. “Faz mais palha, descompacta o solo e carreia os nutrientes que retornam para a planta.”
Integração entre milho, pastagem e solo vivo
Nas terras do agricultor Franke Dijkstra, em Castro, a rotação de culturas é a arma para combater os fungos que comprometem a produção de milho. “Você pode tratar o solo com fungicidas, mas é caríssimo! Nós fazemos naturalmente.”
O milheto será apenas rolado e depois a área receberá o plantio de uma cultura de inverno, a aveia-preta, que também será rolada e deixada no solo para formação de palhada e proteção do solo. A raiz apodrecendo leva água para o interior e contribui para a proliferação de microrganismos, um dos fatores que contribuem para a fertilidade.

Rotação de culturas e plantio direto
O agricultor nos conta que estudos realizados nas terras da fazenda encontraram “10 ton/hectare de organismos vivos criados neste solo…” Mesmo em solos bem drenados há limite para a absorção de água. Por isso, o plantio direto nessa região do estado, onde as chuvas chegam de repente e em grande volume, continua avançando. O uso de canos de PVC nos pontos de maior risco de erosão é a conquista mais recente. “Captadores evitam a remoção do solo com chuva excessiva… O excesso tem que ser administrado. Nós reaproveitamos para irrigação da lavoura em períodos de seca.”
Dentro da fazenda há um ciclo fechado com o reaproveitamento de água e também dos dejetos da pecuária! “A integração garante que nenhum recurso seja desperdiçado.”



Ciclos fechados: água, dejetos e conservação
O plantio direto salvou o solo no Paraná. O holandês Hans Peeten prestava consultoria aos produtores dos Campos Gerais lá no começo de tudo, na década de 1970. Em férias no Brasil, ele acaba de visitar plantações na Bahia, Maranhão e Pernambuco. Segundo ele, a tecnologia agora é bem-vinda por causa da condição do solo. “Quem sabe conduzir bem o sistema de construção do solo consegue produzir através de sol, água e boas variedades de produtividades fantásticas!”
O futuro exige biodiversidade e renda melhor distribuída
Trabalho mais seguro, investimentos em infraestrutura, pesquisas, inovação! Essa é a receita atual que alimenta o mundo e gera riqueza no campo. Mas é preciso vencer a má distribuição de renda!
É urgente recuperar a biodiversidade perdida em décadas de cegueira ambiental e de uso abusivo dos recursos naturais para os madeireiros, a monocultura e a pecuária em larga escala. Uma das propostas que gera maior resultado é a integração agricultura + pecuária + floresta, quase ausente nas terras paranaenses.
Este é o quarto e último texto da série sobre a moderna indústria rural no Paraná, com foco em tecnologia, sustentabilidade, controle biológico, agricultura de precisão, plantio direto e conservação do solo. As reportagens originais foram produzidas em 2017 e foram reconhecidas no Prêmio Alltech de Jornalismo, na categoria Gestão de Negócios. Confira:
- Agronegócio no Paraná: conheça a moderna indústria rural
- Tecnologia no agro: bem-estar animal, frigoríficos automatizados e o avanço da tilápia no Paraná
- Bem-estar animal no agro: como manejo, tecnologia e robôs aumentam a produtividade
- Tecnologia e sustentabilidade no agro: o futuro dos grãos no Paraná
Ao longo da série, a moderna indústria rural apareceu em muitas formas: nas cooperativas, nos frigoríficos, nas granjas, nas propriedades leiteiras, nas máquinas, nos robôs e nas lavouras monitoradas por dados. Mas o último capítulo recoloca tudo no ponto de partida: sem solo vivo, não há tecnologia que sustente o futuro. O desafio do agro paranaense é seguir produzindo com eficiência, sem desperdiçar recursos, sem perder biodiversidade e sem esquecer que a riqueza do campo também precisa chegar melhor a quem vive dele.





