Nesta segunda etapa da série sobre o agronegócio no Paraná, a viagem pelo Oeste do estado revela um campo cada vez mais técnico, integrado e diversificado.
Em granjas, frigoríficos e propriedades rurais, a inovação aparece no manejo das aves, na nutrição animal, no controle de qualidade, na automação industrial e na busca por novas fontes de renda. O frango segue como uma das grandes forças da região, mas a tilápia já começava, em 2017, a ganhar espaço como aposta para o futuro.
Mais do que produzir em escala, o novo agro paranaense mostra que eficiência, bem-estar animal e qualificação profissional caminham juntos; mesmo que, convenhamos, ninguém tenha imaginado que um dia falaríamos de peixe como “o novo frango” com tanta solenidade.
O novo agro começa no manejo
As inovações tornam a produção de animais mais lucrativa e atendem às necessidades de consumidores cada vez mais exigentes. Estamos vendo hoje uma reinvenção nas agroindústrias em busca de substâncias e manejos mais naturais.
Mesmo em modelos de produção intensivos, como no caso do frango, o rígido controle de visitas tenta manter bem distante a ameaça da gripe aviária. Fomos conhecer a granja do avicultor Mateus Fumagalli, em Palotina. Dos três aviários saem a cada 47 dias 99 mil aves para abate. A alimentação é estratégica.
Nas granjas, ciência e rotina diária
Milho e farelo de soja são a base da ração, que tem complementos de vitaminas e minerais. O uso de microminerais na forma orgânica vem ganhando espaço como alternativa para ampliar a absorção de nutrientes. Um estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, concluiu que é possível suprir praticamente toda necessidade nutricional substituindo todos os microminerais inorgânicos por um terço de minerais na forma orgânica.
A explicação estaria na capacidade de absorção e aproveitamento do suplemento pelo organismo, segundo a coordenadora do departamento de Zootecnia da UFV, Melissa Hannas. A pesquisa busca determinar a qualidade mínima para o melhor rendimento nas granjas, evitando o desperdício. O micromineral inorgânico tem como agravante o risco de contaminação do ambiente por metais pesados presentes no nutriente.
Bem tratada o ganho de peso chega a 65 gramas por dia. Também contribuem entre 6 e 8 horas diárias de sono,com o controle da iluminação e da temperatura ambiente, que precisa diminuir à medida que o frango cresce. Começa em 30°C e cai para 21°C na fase final. Além de ter mais conforto, a ave fica mais resistente às doenças – o que evita o uso de antibióticos. “Sanidade, nutrição, ambiência e manejo bem feitos definem o sucesso da produção. O cuidado é diário”, esclarece o zootecnista Mateus Mora, supervisor de fomento avícola na C.Vale.
Frigoríficos automatizados e trabalho qualificado
Cortes automatizados, controle de qualidade por raio x e até um robô no fechamento dos palets de carne congelada. Uma das experiências mais curiosas para quem visita um frigorífico é conhecer o túnel de congelamento, espaço onde a mercadoria é preparada para a expedição.
A temperatura ambiente dentro da câmara é mantida em 30°C negativos. Sensores a laser controlam o entra e sai das caixas. Cada embalagem permanece dentro do túnel em torno de doze horas. A carne que entra a 6°C é retirada ao atingir 12°C negativos se for para o mercado interno ou só com 18°C negativos quando vai para exportação. É uma sucessão de esteiras.

No abatedouro que recebe toda a produção dos aviários, em Palotina, atrás de cada evolução tecnológica tem um colaborador muito bem treinado e com melhores condições de trabalho. Não há mais trabalho manual com a carne congelada, por exemplo. Madson Brum era auxiliar de produção. Há dois anos passou por capacitação e assumiu a vaga de operador do túnel de congelamento. Na nova função passou a ganhar 25% mais. Bom resultado também para a cooperativa que em cinco anos viu o faturamento mais que dobrar. Em 2016 a receita da C.Vale fechou em R$ 6,8 bilhões.
Exportação exige padrão elevado
Com base em inovação e treinamento da mão de obra e gestão, a agroindústria destina mais da metade da produção para exportação. Conforme o gerente da divisão de industrialização, Reni Girardi, os frangos produzidos no oeste do Paraná hoje alimentam consumidores em mais de trinta países, incluindo Estados Unidos e Japão.

Diversificar para fortalecer a renda no campo
Soma um pouquinho aqui, mais um pouco dali… e de grão em grão a galinha enche o papo. Diversificar a atividade rural faz parte do pacote de boas práticas no campo. O desafio é elevar a renda per capita dentro das propriedades rurais do estado.
Um estudo realizado pela Emater e apresentado no começo de fevereiro aponta que a pujança produtiva contrasta com a concentração de renda. 80% do Valor Bruto da Produção (VBP) do Oeste do Paraná, por exemplo, é gerado por 21% dos estabelecimentos na região. E quase metade das propriedades rurais sobrevivem com menos de dois salários mínimos. Ainda assim o VBP da região supera a média do Paraná.
No Oeste o VBP/há é de R$ 9,8 mil, enquanto a média estadual é de R$ 4,6 mil. Ao apresentar o estudo o técnico da Emater, Paulo Tascheto, ressaltou que quanto maior a diversificação das atividades numa região, e com a inserção da propriedade no sistema de produção de valor e de distribuição de riqueza, maior é o retorno do ICMS. O produtor rural ganha, e não ganha sozinho.
“Peixe é o novo frango.” Alfredo Lang, produtor
A tilápia como aposta do futuro
A aposta do futuro é a produção de peixe em cativeiro. O Paraná já é o terceiro estado produtor nacional, sendo que a tilápia responde por 90% da produção estadual. Na propriedade de Claudinei Hafemann, em Maripá. Em quatro tanques, 68 mil alevinos estão em crescimento. Mas o sobe e desce da temperatura preocupa.
No verão, são comuns dias com mais de 30ºC. E no inverno, com frequência os termômetros registram temperatura abaixo de 10º. O peixe sofre, mal se alimenta, não se desenvolve e o produtor perde dinheiro. A ração representa entre 60% e 80% dos custos de produção de pescados. Por isso, a meta é reduzir o tempo de produção. A solução passa pela oferta de produtos com alta qualidade nutricional e pelo controle da temperatura.
Com adequações no manejo, nos próximos cinco anos, conforme estudo do extinto Ministério da Pesca e da Aquicultura, hoje incorporado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o país pode duplicar a produção de pescados. Já em 2020, os produtores nacionais querem atingir a marca de 2 milhões de toneladas/ano e colocar o Brasil entre os cinco maiores produtores do mundo. Atualmente ocupamos a 12º posição num mercado que movimenta cerca de 600 bilhões de euros/ano.


Os investimentos a C.Vale em Palotina contribuem para o atingimento do desafio. Produzir peixe em cativeiro com temperatura controlada é a aposta da cooperativa – que foi buscar a solução com pesquisadores europeus e brasileiros. Por causa dos recentes reajustes nas tarifas de energia elétrica, a construção dos tanques térmicos ficou para uma segunda etapa, dentro de um ou dois anos. Segundo o presidente Alfredo Lang com a nova técnica será possível produzir tilápia com dois ciclos completos por ano. “Peixe é o novo frango”, comemora.
Já na primeira etapa do projeto, a construção de um novo frigorífico especialmente para o beneficiamento de pescados, em Palotina, contribui com a geração de renda na área rural. Serão mais 200 empregos a partir de outubro. Com maior capacidade de abate, a previsão é de mais ganhos nas propriedades rurais. O Claudinei está confiante. “Quanto mais diversificação você tiver, eu acho que sobra um pouquinho lá, um cá…. te ajuda bastante!”
Este é o segundo texto da série sobre a moderna indústria rural no Paraná, com foco em inovação, bem-estar animal, automação nos frigoríficos e diversificação da renda no campo. As reportagens originais foram produzidas em 2017 e foram reconhecidas no Prêmio Alltech de Jornalismo, na categoria Gestão de Negócios. Confira:





