Viajar também é uma forma de enxergar o tempo em que vivemos. E, neste ano, o turismo consciente ganha um ponto de reflexão. É que um dos maiores patrimônios naturais e culturais do Paraná se aproxima de uma marca histórica. Em 13 de agosto de 2026, o tombamento da Serra do Mar completa 40 anos. Trata-se de um marco para a conservação brasileira e também um convite para repensarmos a forma como viajamos por ambientes extremos, frágeis e cada vez mais pressionados pela crise climática.
Podemos dizer que do verde denso da Mata Atlântica ao branco cortante dos grandes picos gelados do continente ao mesmo e da Antártica, a mensagem é a mesma: tudo está conectado. A floresta, o oceano, o gelo, os rios, as comunidades tradicionais, a ciência e as escolhas de quem viaja fazem parte de uma mesma equação.
O tempo da contemplação passiva acabou. O viajante contemporâneo não pode ser apenas um turista em busca de paisagens bonitas. Ele precisa entender o impacto da própria presença e escolher experiências que ajudem a financiar a conservação, valorizar comunidades locais e fortalecer a produção científica.
Nesse contexto, o ecoturismo e o turismo regenerativo deixam de ser apenas nichos de mercado. Passam a ser ferramentas de educação ambiental, geração de renda e proteção de territórios – contribuindo de forma estratégica para a preservação dos ecossistemas e da nossa soberania.

A muralha verde: 40 anos protegendo a Serra do Mar
Quem embarca no tradicional passeio de trem pela Serra do Mar, entre Curitiba e Morretes, ou encara uma trilha nas montanhas do Marumbi, não está apenas visitando um cartão-postal do Paraná. Está entrando em uma das paisagens mais importantes da Mata Atlântica brasileira.
Tombada pelo Estado do Paraná em 1986, a Serra do Mar foi reconhecida por seus valores arqueológicos, históricos, artísticos, paisagísticos, científicos, educativos e ambientais. A área tombada envolve 11 municípios paranaenses e reúne florestas, montanhas, rios, caminhos históricos, sítios arqueológicos, obras de engenharia e paisagens fundamentais para a memória territorial do estado, assim como ocorre no Estado de São Paulo.
A Serra do Mar também integra a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, reconhecida pela Unesco. Trata-se de um território estratégico para a conservação da biodiversidade, para a regulação do clima e para a manutenção de serviços ambientais essenciais.

Na prática, essa muralha verde funciona como um escudo climático. Suas florestas ajudam a armazenar carbono, proteger nascentes, regular a umidade, conter encostas e manter a qualidade da água que abastece cidades, comunidades e atividades econômicas.
A conexão entre a serra e o oceano forma uma das regiões mais ricas do litoral brasileiro: o complexo estuarino-lagunar do Lagamar, onde manguezais, baías, ilhas, restingas, comunidades caiçaras e biodiversidade marinha se encontram. É um território onde a natureza e a cultura não podem ser separadas.
Preservar a Serra do Mar, portanto, não é apenas proteger uma paisagem bonita. É proteger uma infraestrutura natural que sustenta vida, clima, água, memória e identidade.
O extremo branco: a Antártica como termômetro do planeta

Essa mesma lógica de respeito absoluto ganha contornos ainda mais radicais quando cruzamos o globo rumo ao sul.
A Antártica é frequentemente descrita como o grande termômetro climático da Terra. O que acontece naquele continente gelado influencia os oceanos, correntes marítimas, nível do mar, biodiversidade e padrões climáticos em várias partes do planeta.
Eu tive a oportunidade de atravessar o temido Mar de Drake a bordo do “Gigante Vermelho”, o Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, o H-44, da Marinha do Brasil. Foi uma experiência que redesenhou minha percepção de limite.
O vento implacável, o frio cortante e o mar revolto não são apenas elementos de aventura. Eles são os guardiões de um continente onde a presença humana precisa ser mínima, controlada e justificada por um propósito maior.
É naquele gelo que pesquisadores brasileiros e estrangeiros coletam dados vitais sobre o futuro do clima. São estudos sobre atmosfera, oceanos, gelo, biodiversidade, microbiologia, mudanças climáticas e até bioprospecção, área que investiga organismos e compostos naturais com potencial para aplicações científicas e biomédicas.
A Antártica não é um destino comum. É um laboratório vivo do planeta. E precisa ser vista assim.
O alerta do turismo antártico
Mas o avanço do turismo na Antártica acendeu um alerta internacional.
Dados da International Association of Antarctica Tour Operators, a IAATO, mostram que o continente recebeu 113.518 visitantes na temporada 2025-26, somando cruzeiros sem desembarque, visitantes que pisaram em terra e operações de campo profundo. O número representa uma queda de 4,2% em relação à temporada anterior, mas mantém a Antártica em um patamar superior a 100 mil visitantes por temporada.
Esse volume revela uma contradição. Por um lado, conhecer a Antártica pode transformar a consciência ambiental de quem pisa naquele território. Por outro, o fluxo de navios, voos e desembarques amplia riscos para um ecossistema extremamente sensível.
Os impactos potenciais incluem emissões de carbono, introdução de espécies invasoras, perturbação da fauna, resíduos, riscos sanitários, pressão sobre áreas de desembarque e dependência de combustíveis em um ambiente remoto e vulnerável.
A pergunta que fica é inevitável: como garantir que a presença humana não acelere a degradação de um lugar que justamente nos ajuda a entender a crise climática?
Sustentabilidade na mochila
A resposta, tanto para a Antártica quanto para a Serra do Mar, passa por um novo pacto entre turismo, ciência e conservação.
Viajar não pode ser apenas consumir paisagens. Precisa ser também apoiar quem protege esses territórios.
No litoral paranaense, isso significa valorizar o turismo de base comunitária, contratar guias locais, respeitar comunidades caiçaras, consumir produtos regionais, seguir regras de visitação, não deixar resíduos, evitar trilhas não autorizadas e entender que a floresta em pé gera benefícios muito além da experiência turística.
Na Antártica, significa escolher operadores comprometidos com protocolos ambientais rigorosos, limites de desembarque, biossegurança, educação científica a bordo e transparência sobre impactos. Também significa compreender que nem toda experiência extrema é justificável apenas pelo desejo individual de conhecer um lugar raro.
O viajante que pratica o turismo consciente precisa carregar mais do que equipamentos na mochila. Precisa levar informação, responsabilidade e disposição para reduzir a própria pegada.
Do turismo sustentável ao turismo consciente e regenerativo
Durante muito tempo, falamos em turismo sustentável como aquele capaz de reduzir danos. Hoje, diante da emergência climática, essa ideia já não basta.
O conceito de turismo consciente e regenerativo propõe ir além: a viagem deve contribuir para melhorar o território visitado. Isso pode ocorrer por meio de geração de renda para comunidades locais, apoio a projetos de conservação, financiamento de pesquisas, valorização de culturas tradicionais e educação ambiental dos visitantes.
Na Serra do Mar, isso passa por fortalecer iniciativas que mantêm a Mata Atlântica protegida e as comunidades vinculadas ao território. Na Antártica, passa por reconhecer que o turismo só faz sentido se estiver subordinado à ciência, à conservação e às regras internacionais de proteção ambiental.
O destino não pode ser apenas cenário. Ele precisa ser tratado como sujeito: com limites, história, vulnerabilidades e direitos.
Embarque nessas expedições
Para mergulhar nessas duas realidades, o H44 Horizonte destaca séries especiais que mostram, em campo, o valor da conservação.
Na série sobre a Serra do Mar, revisitamos a importância desse patrimônio natural e cultural do Paraná, seus caminhos, sua biodiversidade, suas comunidades e os desafios de manter viva uma das áreas mais simbólicas da Mata Atlântica.
Na série Expedição Antártica Extrema, atravessamos o Mar de Drake a bordo do Ary Rongel para mostrar os bastidores da presença brasileira no continente gelado, o trabalho da ciência e a força de um território onde a natureza impõe suas próprias regras.
Foram duas coberturas muito diferentes, mas conectadas pela mesma urgência: entender que conservar não é uma escolha estética. É uma condição de futuro.



Do Lagamar ao Mar de Drake, da floresta ao gelo, do turismo local às expedições polares, a crise climática exige um novo tipo de viajante.
Um viajante que observa, mas também aprende. Que se encanta, mas também respeita. Que compartilha imagens, mas entende os limites do território. Que reconhece que cada destino frágil carrega uma pergunta ética: o que a nossa presença deixa para trás?
Vamos continuar essa conversa?
Compartilhe este texto nos seus grupos e redes sociais. E, para acompanhar mais conteúdos como este, acesse e se inscreva no canal H44 Horizonte no YouTube. Por lá, você também pode deixar seus comentários nos vídeos. Vou adorar saber sua opinião.
De olho no Horizonte
Por que a Serra do Mar é importante para o clima?
A Serra do Mar preserva um dos trechos mais importantes da Mata Atlântica no Paraná. Suas florestas ajudam a armazenar carbono, proteger nascentes, regular a umidade, manter a biodiversidade e reduzir riscos de erosão e deslizamentos.
O que é o Lagamar?
OO Lagamar é um complexo estuarino-lagunar entre o litoral do Paraná e de São Paulo, formado por baías, ilhas, manguezais, restingas e áreas de grande biodiversidade. É também território de comunidades tradicionais, como populações caiçaras.
Por que a Antártica é chamada de termômetro do planeta?
Porque alterações no gelo, no oceano e na atmosfera antártica ajudam cientistas a entender mudanças climáticas globais, elevação do nível do mar e transformações nos sistemas oceânicos.
Quantos turistas visitam a Antártica?
Segundo a IAATO, a temporada 2024-25 registrou 118.491 visitantes em atividades turísticas antárticas, considerando turismo por navios e atividades de campo.
O que é turismo consciente e regenerativo?
É uma forma de turismo que busca deixar impacto positivo no território visitado, apoiando comunidades locais, conservação ambiental, ciência, educação e economia regional.



